Em palestra promovida pela Geekie, Marcos Piangers, autor do livro O papai é pop e jornalista, fala sobre as habilidades que realmente devem importar hoje e no futuro.

Em 21 de outubro, o Colégio Ranieri convidou os pais para assistirem o evento TODOS NA PRIMEIRA FILEIRA, promovido pela Geekie, empresa parceira de material didático sobre as habilidades do profissional do futuro. Ministrada por Marcos Piangers, a palestra foi transmitida ao vivo pelo canal da Geekie no Youtube e contou com mais de mil pessoas entre professores, educadores e pais. Conduzido por Mauro Romano, COO da Geekie, e com a participação final do Cláudio Sassaki, Cofundador e CEO da Geekie.

“Contratamos pessoas que sabem ouvir, sorrir, se preocupar com os outros, dizer obrigado e ser atenciosas”, diz Colleen Barrett, da Southwest Airlines, sobre as principais competências que o candidato deve ter para ingressar na empresa.

A frase soa de maneira subjetiva, mas em pesquisa realizada pela consultoria PricewaterhouseCoopers, com dois mil CEOs sobre quais habilidades eles mais procuram e quais as mais difíceis de encontrar em um profissional, liderança, criatividade e capacidade de inovar foram as mais citadas.

Segundo Marcos Piangers, tais habilidades têm sido cada vez mais cobradas porque a evolução da tecnologia, em todas as áreas, tem gerado novos comportamentos de consumo, novas formas de se relacionar e novas formas de aprender.

Piangers é jornalista, especialista em novas tecnologias, criatividade e inovação. É reconhecido também pelos vídeos na internet que ultrapassam 400 milhões de visualizações, e se tornou uma referência em paternidade. É autor de livros e sua obra “O papai é pop” vendeu mais 300 mil exemplares.

“A tecnologia está enraizada no nosso dia a dia. Usamos Whatsapp para se comunicar, Waze para nos ajudar a chegar em algum lugar, Netflix ou Amazon como plataformas de conteúdo e, ainda, consumimos informação nas redes sociais, sites e blogues”, explicou.

A pandemia do covid-19 somente potencializou esse movimento e acelerou mudanças que já vinham acontecendo. O consumo via internet aumentou 10%. Esse mesmo percentual aconteceu em 10 anos. Houve um boom no uso da plataforma Zoom, Google Meet e outras. As crianças passaram a consumir mais jogos online. Quem não ouviu falar no Roblox, Among Us e Discard?

Por ironia ou coincidência, todos esses jogos simulam a vida social. “Acredito que o isolamento social contribuiu bastante para que as crianças buscassem meios para continuar socializando, ainda que no meio virtual”, explica Marcos.

De acordo com o jornalista, a tecnologia sempre existiu em nossas vidas, desde que surgiu a máquina de datilografia, fax, telefone, celular. É um processo em evolução. Daí a importância de enxergarmos a tecnologia, entendermos e nos adaptarmos a ela, aproveitando a partir dela, os melhores recursos para a construção e transformação de como lidamos com o mundo.

“Quando olhamos a tecnologia entrando na rotina escolar, ainda nos sentimos inseguros. Quando vejo a minha filha conversando com uma amiguinha que está em Paris, através de uma plataforma digital, enquanto desenha o prédio onde elas brincam que vão morar após pandemia, eu enxergo que ela está exercitando a escuta, a capacidade de comunicação, está aprendendo e desaprendendo e está criando algo com alguém”, diz Piangers.

É interessante como a tecnologia está impactando o desenvolvimento das habilidades dos jovens. Essa relação é um sinal do que está acontecendo no mercado de trabalho. Autogestão, autonomia, criatividade, liberdade, saber trabalhar em equipe têm sido algumas habilidades que estão sendo trabalhadas, organicamente, dia a dia após terem iniciado as aulas à distância.

Estamos acompanhando uma transformação constante no mercado de trabalho. Jovens trabalhando como youtubers, gamers, cientistas de dados, desenvolvedores de apps, vendedores de colchão via internet, professores de podcasts, vendedores de travesseiros para quem tem dor nas costas, dono de empresa de mágica, blogueira de slimes, entre outras profissões que nunca imaginamos ver.

Entender que os nossos filhos estão criando profissões é um passo importante para construir uma nova relação com eles e o entendimento da participação da escola neste processo.

Com bastante inteligência emocional e estrutura para lidar com essas transformações, com habilidades para aprender e desaprender, criatividade para inventar e reinventar, as carreiras serão diferentes, talvez menos estáveis em comparação ao que estamos acostumados.

Muitos trabalhadores estão pedindo para trabalhar menos. A Microsoft, por exemplo, está testando uma semana com quatro dias de trabalho. Até agora foi observado que a produtividade aumentou 40%. “Sabemos que tem mais emprego nas áreas que necessitam de habilidades socioemocionais e na área de tecnologia. Diante disso, sabemos também que por isso é fundamental desenvolver nas crianças mais habilidades de autogestão, mais conhecimento tecnológico e mais capacidade de comunicação”, ressaltou Marcos na palestra. “Os robôs estão tomando conta de postos de trabalho, mas o melhor time é de humanos e máquinas”, complementa.

“Não importa quanta tecnologia exista, quanto criativos sejam nossos filhos, não importa o que aconteça no futuro, o mais importante será a habilidade humana: a capacidade de lidar com nossas emoções, saber trabalhar em equipe, o que nos diferencia não é só a nossa capacidade de resolução de problemas complexos, mas sim a capacidade de lidar com trabalho em equipe e autogestão.”

Em muitas escolas estamos ensinando que decorar e entregar o trabalho da maneira que queríamos é nota 10 e errar é nota 0. Essa visão faz o aluno ter medo de errar e não enxergar que errar faz parte do processo de experimentação. “Quem está dizendo tudo isso não sou eu, mas sim o Fórum Econômico Mundial, a PricewaterhouseCoopers e outras empresas”, explicou Piangers.

O jovem não tem que saber somente sobre robótica, programação ou qualquer outro conhecimento técnico. Ele tem que saber o que está sentindo, saber lidar com as emoções, tem que exercitar a comunicação, ou seja, saber falar e ouvir e, ainda, aprender a se preocupar se o outro está entendendo o que ele está dizendo.
No mercado de trabalho, fomos treinados para repetir como máquinas, para entregar resultados. Mas a realidade atual é diferente. Contra a inteligência artificial temos a inteligência orgânica, ou seja, natural, sofisticada e que nos permite competir com essa máquina com nossa capacidade de liderança, adaptabilidade e autonomia.
Saber que cada emoção tem um motivo e reconhecê-lo nos ajuda a lidar com ela de maneira madura. “Não é porque estou angustiado que vou responder de maneira violenta a minha esposa, filhos, ou aos alunos.”

A Google passou dez anos pesquisando quais equipes eram mais eficientes e descobriram que eram as equipes que tinham mais empatia e confiança entre os participantes.

Outra pesquisa apontou que 75% do sucesso profissional é resultado de: bom suporte social, ou seja, casa, comida e suporte da família; inteligência emocional, ou seja, capacidade de lidar com desafios; motivação interna, ou seja, autoconhecimento e autorregulação; e comunicação, capacidade de trabalhar em equipe.

Segundo Dov Seidman, CEO of the leadership consultancy LRNThe talento challenge (PWC 2017), as habilidades mais importantes são aquelas que não podem ser replicadas por máquinas, que estimula a inovação. O software não pode imitar a paixão, o caráter ou espírito de colaboração. Agora é o coração humano, e não o cérebro, que nos diferencia.

“Costumo falar que existem cinco ‘cês’ para a construção completa das habilidades humanas: autoconhecimento, capacidade de comunicação, criatividade, colaboração e consciência coletiva. Muito disso vem de dentro de casa. Para isso, precisamos estar mais atentos aos nossos filhos, conversar mais, conviver mais, participar mais da vida escolar.

Na ocasião, Marcos Piangers apresentou um gráfico que mostra as expectativas dos pais em relação aos filhos de acordo com o nível de conexão entre pais e filhos. Pais permissivos podem esperar por filhos mimados; pais presentes contribuem com filhos autônomos e confiantes; pais omissos, filhos carentes; e pais autoritários, filhos ansiosos.

A pandemia tem coisas horríveis, mas tem como ver coisas boas também. Estivemos mais presentes com nossos filhos, descobrimos novos comportamentos, nos surpreendemos com o jeito deles pensarem, interagirem e estamos fazendo parte da extensão da escola.

Essa dinâmica familiar certamente irá contribuir com o sucesso dos nossos filhos: a construção de cidadãos confiantes, autônomos, criativos, capazes de entender suas emoções, capazes de lidar com transformações e, ainda, pessoas que entendem a importância do seu papel na sociedade.

Leia também a matéria sobre como lidar com as emoções, de acordo com Leo Fraiman, psicoterapeuta especialista em Psicologia Escolar e Mestre em Psicologia Educacional e do Desenvolvimento Humano pela USP.